O tema da inibição traz uma característica peculiar, pela qual podemos pensar na razão de haver pouca bibliografia a respeito. A inibição não é em si mesma um referente, ela se refere à diminuição do desempenho de uma função do Eu.
Em Sintomas, Inibições e Angústia, Freud a refere como ligada ao conceito de função e, por isso, ele se vale da análise de algumas funções do Eu para buscar as formas que as perturbações dessas funções assumem nas diferentes neuroses.
Tanto teoricamente quanto na prática analítica, a inibição não passa de mais um subterfúgio para o sujeito tentar driblar a angústia. Portanto, pode ser considerada uma negatividade relativa a um substituto, como as formações do inconsciente também o são.
Quando relaciona o conceito de inibição ao de sintoma, Freud chega a trata-los como sinônimos, embora indique alguma diferenciação pela frase “a inibição é um sintoma colocado no museu”. O que se coloca no museu? – Aquilo que não tem mais serventia. Freud afirma: “Que existe uma relação entre a inibição e a angústia é algo evidente. Algumas inibições obviamente representam o abandono de uma função porque sua prática produziria angústia.”
O problema da angústia em relação a repressão não é simples, mas sabemos, desde Freud, que o Eu é a sede da angústia.
Se o Eu é a sede da angústia, por outro lado, é também a sede do narcisismo. Mais uma tentativa de driblar a angústia, esta que é também resultado do narcisismo – ideia que mostra um caráter circular. Angústia e narcisismo mostram-se interdependentes.
O propósito da colocação do sintoma no museu é de aplacar a angústia. Contudo, isso fracassa, pois não se pode renunciar a nada, só ocorrem trocas. A pulsão encontrou um substituto apesar da repressão, mas um substituto mais reduzido, deslocado e inibido, porém não mais reconhecível como satisfação. E, quando a moção pulsional substitutiva é levada a efeito, não há qualquer sensação de prazer; sua realização apresenta, ao contrário, a qualidade de uma compulsão.
Por mais inesperado que possa parecer, o pai da psicanálise também toma a questão da inibição pela via do chiste. Os chistes são uma das quatro formações do inconsciente assim como os sonhos, os atos-falhos e os sintomas, todas elas processos de condensação que levam a abreviações e criam substitutos, portanto processos de mesma natureza – efeitos do recalque.
Diferentemente do sintoma, o chiste não aparenta a característica da compulsão e oferece um auxílio na suspensão da resistência.
Assim, o chiste tem um sentido, em seu aspecto geral, de dizer que “as vontades e desejos dos homens têm o direito de se tornarem aceitáveis ao lado de uma moralidade severa e cruel, (…) [pois] será impossível sufocar dentro de nós, a voz que se rebela contra as exigências da moralidade.”
Freud afirma que os chistes podem encontrar obstáculos como os critérios morais e sociais que podem nos inibir quando nossa vontade implique em algo que possa ser considerado uma transgressão – o que causaria angústia e, por conseguinte, sustentaria uma inibição.
O trabalho proporcionado pelo chiste é fonte de intenso prazer e parece não angustiar o sujeito. A suspensão de uma inibição já é sentida como prazer.
Freud afirma que a repressão é o tipo de inibição mais amplo e de especial interesse para a Psicanálise. É a responsável pelo impedimento das moções pulsionais, submetidas a sua força, chegarem à consciência. Mas, os chistes podem proporcionar prazer, mesmo de pulsões já reprimidas. Podemos dizer que a característica primordial da elaboração dos chistes é a liberação de prazer pelo desfazimento das inibições. Nas palavras de Freud: “Ou fortalecem os propósitos a que servem, transmitindo-lhes apoio procedente das pulsões mantidas suprimidas, ou põem-se inteiramente a serviço dos propósitos suprimidos.”
Essa questão do prazer, principalmente nos chistes, é crucial. Freud já afirmara que “o homem é um ‘incansável buscador do prazer’ – esqueço-me onde deparei com essa feliz expressão -, qualquer renúncia de um prazer já desfrutado é dura para ele.”
A pergunta agora seria: o que possibilita tal prazer no mecanismo do chiste? Freud nos dá uma pista quando explica que tanto para conservar uma inibição quanto para construir uma deve-se fazer um investimento, ou seja, há uma despesa psíquica que possibilita a inibição. Daí que o autor diz ser válido supor que o prazer obtido dos chistes está relacionado “à despesa psíquica que é economizada.” Mais adiante, afirma: “Devemos atentar para o fato de que ‘a economia na despesa relativa à inibição ou à supressão’ parece ser o segredo do efeito de prazer dos chistes.”
Como dito anteriormente, a repressão e a angústia estão estreitamente ligadas, assim como a angústia e o narcisismo. Se o Eu é sede da angústia, como o chiste libera a repressão, gerando prazer, sem angustiar o Eu?
Uma possibilidade parece ser quando Freud afirma que os chistes têm outra forma de lidar com a inibição. Compreende-se a função dos deslocamentos no chiste se considerarmos a técnica dos chistes para transpor a inibição, técnica que consideramos o mais característico de seus traços. “Os chistes não criam compromissos; eles não evitam a inibição, mas insistem em manter inalterado o jogo com as palavras ou com o nonsense. Restringem-se, entretanto a uma escolha das ocasiões em que esse jogo ou esse nonsense possam ao mesmo tempo parecer permissíveis (nos gracejos) ou sensatos (nos chistes), graças à ambiguidade das palavras ou à multiplicidade das relações conceptuais. Nada distingue os chistes mais nitidamente de todas as outras estruturas psíquicas do que essa bilateralidade e essa duplicidade verbal”.
Assim, o prazer obtido vem da suspensão da inibição, mas o conteúdo inibido continua inalterado. O chiste diz, mas não revela. Não há mudança na posição subjetiva.
Essa formação do inconsciente é a maneira de satisfazer, na medida em que se pode dizer satisfação, as pulsões agressivas e sexuais. Freud afirma que essas pulsões são restringidas pela educação e moralidade. Os chistes trazem à tona os temas agressão e sexualidade, mas só podemos rir dos chistes que tratam desses temas de maneira muito refinada e elevada. Caso contrário, nos inibimos com a obscenidade.
No chiste, os métodos invalidados pela lógica são aceitos e os pensamentos e palavras podem ser mesclados, mesmo quando essa técnica revele um sem sentido. Dessa forma mostram, pela falta de uma conexão lógica, uma outra lógica. Uma lógica que se mantém velada.
Assim, o chiste transpõe sem transgredir. Transpõe a inibição sem transgredir os ideais.
Trabalho apresentado nas Jornadas da Maiêutica: “Inibições, Sintomas e Angústia”, dias 25 e 26/09/2015.
FREUD, S. Os chistes e sua relação com o inconsciente. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. VIII.
FREUD, S. “Inibições, Sintomas e Angústia”. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. v. XX.




