Considerações iniciais da minha pesquisa no mestrado.
A proposta é fazer um percurso desde as entrevistas preliminares até o que seria, dentre os possíveis, um fim de análise, principalmente no que se refere ao que Lacan chamou de direção da cura. Não se trata de trabalhar as especificidades dos fins de análise idealizados pela teoria, mas sim, propor uma reflexão sobre os efeitos de uma análise, tomando como ponto central a constituição do sujeito. Ou seja, trata-se de apresentar como, ao trabalhar para romper o sentido ao qual o sujeito se agarra como o único possível, o analista põe em marcha o que motoriza a constituição do sujeito, ou seja, a falta. Se se pode dizer que a análise tem uma possível meta, com toda relatividade que essa afirmação implica, essa meta seria algum reconhecimento dessa falta. Isso, com base na relação do sujeito com o objeto a, ou melhor, com o que o sujeito reconhece como seus postiços. A falta, a dor de existir é frequentemente vista como um vazio sem sentido que horroriza o sujeito, mas que ao mesmo tempo, o possibilita. É a partir dessa consideração que se propõe pensar se a análise ou o analista restaura alguma coisa para o analisante.
Esse tema foi inspirado no texto “O analista restaurante (acerca de self, eu e sujeito)” de Roberto Harari, de 1987. Neste texto, o autor faz uma exposição crítica, como ele mesmo se refere ao seu texto (Harari, 1987, pp. 83) sobre a concepção de Heinz Kohut sobre a experiência analítica. À guisa de esclarecimento, faz-se importante informar que Heinz Kohut, nascido na Áustria em 1913, foi um membro proeminente do Instituto de Psicanálise de Chicago, um grande expoente da psicanálise norte-americana e conhecido pelo desenvolvimento da psicologia do self. Harari analisa mais especificamente o último trabalho de Kohut “A restauração do self” de 1977. Como o nome do trabalho já nos indica, Kohut sustenta a tese de que “o self é um centro de iniciativa psicológica autopropulsado, autossustentado, coesivo, contínuo; é como uma unidade que busca seguir seu próprio curso outorgando um propósito central à personalidade e uma sensação de sentido à vida.” (Harari, 1987, pp. 84). Harari propõe, então, que cabe a alcunha de analista restaurante ao analista kohutiano e se questiona se “consistirá esse modo de analisar na faculdade de levar o analista, como objeto à boca?” (Harari, 1987, pp. 84). É a partir daqui que propomos um percurso sobre o que estaria em jogo num percurso analítico.
O termo que intitula esta pesquisa ‘restaurante’ segue uma episteme negativa, dado que podemos perguntar o que uma análise seria capaz de restaurar? Ou ainda, seria meta de uma análise a restauração de alguma característica perdida? Ou que se possa conceber como perdida? A função do analista seria uma restauração? O psicanalista restaurante tem uma função, sem dúvida, mas não propriamente de restaurador. O significante também faz soar restaurante como o lugar onde se vai para comer, restaurando as forças. Ideia que vai de encontro com o tema em questão.
A episteme negativa propõe que o trabalho siga uma trajetória a partir do que não é. Ou seja, falar sobre o que não é, retirando os excessos que escondem o que é. Essa episteme negativa não é nova, já aparece em Freud, no seu texto “Sobre a Psicoterapia”. Nesse texto, ele cita Leonardo da Vinci, que afirma que existem duas fórmulas de criação das artes: per via di porre e per via di levare. Via di porre consiste, segundo ele, no que caracteriza um quadro, onde acrescenta-se a tinta à tela branca. Contrariamente, a via dilevare consiste em retirar o que não é, para que reste, que surja o que é, como é o caso da escultura. Dessa maneira, Freud traz a ideia de que nossa tarefa consiste no correspondente ao procedimento da via di levare. É por aí que caminha a psicanálise – episteme negativa (Freud, 1905/1996, pp. 247).
Um bom exemplo desse método que propõe Freud, aparece claramente no filme “Camille Claudel”, de Bruno Nuytten, quando uma criança pergunta, deslumbrada com a escultura de Camille, como a artista sabia que havia gente dentro da pedra. Essa pergunta sugere que o esculpido seria um objeto que já se encontrava lá, evoca essa ideia de que as coisas poderiam estar predestinadas, como se diz nas expressões populares – escrito nas estrelas. Ao considerarmos assim, no caso da psicanálise, desde o início, nas entrevistas preliminares, já poderíamos ter alguma ideia do resultado (como mostra a perspectiva da pergunta da criança). Na psicanálise, é claro que não sabemos, – mais ainda – não está lá, não há nada lá!
Harari em “O que se espera de uma análise” questiona o que pode ou propõe a psicanálise. Cita essa reflexão marcando que vivemos uma certa desesperança, em que os ideais de outrora já não inspiram mais e mostram claramente que não podem fazer outra coisa que falhar em entregar o que supostamente prometeram. E que mesmo vivendo em uma era da imagem, da cultura do narcísico, onde o importante são os prazeres individuais, sofremos. (Harari, 2008, pp.159-161).
Assim, essa primeira questão, o que pode a psicanálise, nos parece um fio condutor inicial para trabalhar. Mas, um ponto importante, talvez para desenvolvermos mais o tema, é a afirmação de que, mesmo com mudanças muito grandes que o mundo atravessou no último século (partamos do espaço de tempo desde a invenção da psicanálise por Freud até hoje), o sujeito sofre de um mal-estar. Apesar de muitas facilidades estarem ao alcance, cada vez mais disponíveis aparentemente, elas não aplacam o mal-estar do sujeito.
Essa questão nos parece essencial, tanto para pensarmos o que pode a psicanálise, tanto como ela opera. A análise restaura algo para quem a busca? A demanda do paciente coincide com o que pode oferecer uma análise? Todas essas são questões com implicações importantes, tanto técnicas quanto éticas, a serem trabalhadas.
Referências:
HARARI, R. El analista restaurante: (acerca del self, yo y sujeto). Discurrir el psicoanálisis. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión.
HARARI, R. O que se espera de uma análise? O psicanalista, o que é isso? Rio de Janeiro: Cia de Freud.
FREUD, S. Sobre o início do tratamento (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I). Obras completas, Volume XII. Rio de Janeiro: Imago.




