O amor é próprio?

A vontade de esquecer é um movimento do amor-próprio: mas então, o amor-próprio está em luta consigo mesmo e não para de lembrar; ferido, humilhado, ele busca se curar e aviva as feridas. Entre o esquecimento e a vontade há uma misteriosa cumplicidade: nessa espécie de penumbra onde o esquecimento é, por assim dizer, consentido, o olhar consegue evitar uma lembrança que lhe desagrada, mas porque há em nós uma divisão da vontade que, no mesmo ato, chama e recalca a lembrança.

Louis Lavelle – O Erro de Narciso

Amor-próprio é uma dessas expressões que se popularizaram de uns anos para cá e se transformaram em uma tentativa de cura para todos os males da existência humana. Não é difícil encontrar alguém ou alguma mensagem de “ame-se” frente a qualquer tipo de problema ou situação.

Em geral, essas dificuldades que se apresentam são decorrentes das relações com outros – o que leva a pergunta: amor-próprio ou amar-se, antes de tudo, facilita ou mesmo resolve essas dificuldades? Por que as relações com o outro são fontes de dificuldades?

O Eu, desde Freud, é consequência das identificações; e do mesmo modo, afirma que é a sede do narcisismo mais do que da consciência. No texto Psicologia das massas e análise do Eu, o mestre vienense a cita como “a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa”. (Freud, 1921, p.115) A identificação tem um papel na história primitiva do Édipo, por exemplo, o menino gostaria de ser como seu pai e tomar seu lugar em tudo; toma o pai como seu ideal. Identificação que vem do ato de se tornar idêntico e absorver em si. Ou seja, ao querer se tornar idêntico ao seu ideal, o Eu absorve para si um traço que considera como bom.

Vappereau adverte que o narcisismo não é um defeito. No estádio do espelho, ocorrem duas posições do sujeito quanto a seu corpo: o corpo no espelho como corpo do outro, ou seja, extrínseco e, por outro lado, o Eu como intrínseco a seu próprio corpo.

Coordenar essas duas posições parece um ato simbólico impossível. Assim, o narcisismo é uma tensão erótica violenta necessária para praticar o simbólico. (Vappereau, 2016) Para Lacan, o Eu se forma pela identificação narcísica com a imagem do semelhante – a imagem especular que lhe oferece uma ideia de inteireza e independência. Por outro lado, essa semelhança pode se tornar ameaçadora já que, o outro semelhante pode, por isso, querer tomar seu lugar. Assim, o vizinho é quem pode colocar em perigo a autonomia e integridade do Eu. Daí que, o Eu coloca nessas semelhanças a hostilidade, caracterizando-as como diferenças.

O amor próprio é, em geral, um conflito narcísico que resulta na dificuldade de sair de si mesmo, de conhecer o mundo e de reconhecer que não ele é o único, e que é o outro que proporciona a possibilidade da diversidade. O amor próprio é uma dificuldade com a diferença, pois é a igualdade; tudo o que é visto como diferente, tomando como ponto central a si próprio, é ruim. Assim, não aprende nada, porque só se pode aprender a partir da diferença. A relação com o outro pode causar mal estar pois, em geral, mostra ao sujeito o que ele não reconhece e tenta esconder de si mesmo.

Assim, quanto mais amor-próprio, mais dificuldades em lidar com as surpresas que a vida apresenta.

FREUD, S. “Psicologia das massas e análise do eu”.

HARARI, R.”¿Por qué las pequeñas diferencias son tan grandes?”

VAPPEREAU, J.M. “La única construcción simbólica efectiva es el chiste” In El Telegrafo.

Disponível Aqui.

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