A ideologia da saúde mental

Um tema muito comentado e muito bem visto, não só entre os profissionais da área psi, mas também no que é conhecido como senso comum, é o da chamada saúde mental.

Um dos textos bases da clínica psicanalítica se chama Psicopatologia da Vida Cotidiana, cujo o primeiro capítulo foi publicado em 1898. Isso nos indica que Freud não propunha um modelo de saúde mental, mas sim que o cotidiano é caraterizado pela psicopatologia. Assim como em A Psicoterapia da Histeria, de 1895, em que a proposta freudiana é mais clara ao afirmar que: você poderá convencer-se de que haverá muito a ganhar se conseguirmos transformar seu sofrimento histérico numa infelicidade comum.

Então, não existe saúde mental? Essa é uma pergunta possível, mas provavelmente não é a mais importante. Se considerarmos que existe saúde mental, quem determinará o que será saudável nesse caso? E, como seria proposto esse ideal para as pessoas? Através de quais ferramentas? A saúde mental determinada serviria para todos? Seria imposta para todos? E, o fundamental para a psicanálise: onde fica o sujeito nisso tudo?

Para a psicanálise, o que importa é o sujeito e como ele se implica em suas escolhas. Se temos um modelo a ser seguido e alcançado, ou seja, uma ideologia da saúde mental, não temos mais lugar para o sujeito porque não há lugar para a singularidade. Em seu artigo Inibições, sintomas e angústia, Freud comenta que é o nosso trabalho tacanho, o do psicanalista, que aos poucos, um por um, dissolve qualquer manual, qualquer ideologia que tente dar conta da existência humana.

Outra face dessa questão da saúde mental é de que essa propaganda traz consigo mais uma promessa de felicidade. Existe uma maneira de ser feliz eternamente, se você obedecer a algumas regras. Parece sedutor? É possível? Tendo em vista as experiências passadas que, em nome de um bem comum e grandioso, as maiores atrocidades foram cometidas, parece que não.

Diante disso, a proposta do mestre vienense soa mais realista: poder viver a vida sem ser governado pelo sintoma. Nada mais, nada menos.

Rolar para cima